''Todas as horas ferem, até que a última põe um fim...''

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Aspas por dentro

Sonetos que não são
de Hilda Hilst


''Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha

Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha.)

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.''

( Roteiro do Silêncio(1959) - Sonetos que não são - I)

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Dos pólos ao centro

Gotas que abrasam o dia de seu total,
esvaem o mundo
sem chegar ao seu fim

Nos abrem os olhos e dispersam o mesmo cálido,
quem sabe entornando gotas também,
a fim ...

de mudar
uma palha seca
pra paisagem plena.

Como no dourado do trigo,
lembrar uma trilha só
e com tudo que mancha a saudade,
escrever o sentimento maior,
que é muito melhor dividir esperas,
do que caminhar sozinho.
Um pedaço aqui
e outro acolá...
mas é assim
que o vento e
seus sinais,
fazem meu sentido.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

domingo, 7 de novembro de 2010

A rede

O balanço que me embala
é como um vôo sem transmutar o corpo
o que liberta é um fechar de olhos sublime
de o peso em pluma abaixo do pés - logo terra, sim,
mas vivendo o etéreo das ideias

E assim simples eu quero a fibra dessa matéria
e não o enjoo do ir e vir
como eterno retorno e ânsia do que não se é

E sabe-se de repente, que antes de livrar-se do passado,
a grande coragem é o salto de ir
e saber voltar pra reconhecer o que lapidou esse todo

Abaixo de si, um solo de vermes
e a fertilidade inspirando (enquanto doendo) o coração,
e também pedindo o céu, como num momento desses -
aonde o lúdico e um de repente deixa os dois em mim
como um entremeio

E o meio gosto,
e a vontade do vôo,
na equalização dos meus medos e sonhos.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

pequenas rosas despetaladas

O olhar transforma o que recebe
do cultivo frutificado por dentro;
a terra estremece ao mais delicado sentir
e uma rosa aparece, em certeza apaziguada em si

O bem-querer mora nos cílios de quem percebe o mundo
com os próprios pulsares sonorizando os passos,
sob a terra em que vive o bem-querer dentro de um suspiro
e a realidade a que se inventa o espaço.

Contorna a forma e liberta a fonte
dos dedos enrodilhados na entrega
de receber nas mãos um papel, o mundo
como as últimas e primeiras coisas da aurora e nosso interno submundo.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

a sombra de um dia bonito

organismos simples implodem inúteis
a virtude de falar para regurgitar lamentos...
o cansar do avesso pintando flores pra não esquecer dos momentos
e do vazio da lógica fácil que o tempo não deixou.

os olhos se pintam de cor
e a complexidade flutua imune
as paisagens passadas, a nostalgia de não pertencer ao puro
que a solidão se concretou;
no momento mesmo de registrar o mundo e cuidar com a armadilha
que os próprios cílios entregam:
no momento de desligar-se do mecanismo,
e reverter.

o medo da vida que a coragem nos deixou.

domingo, 31 de outubro de 2010

do que se vive e eu te conto...

Abre o dia pra receber a luz no peito...
que a calidez do coração seja a prosperidade
do vento, em seu dia e entrega à integridade
de nossa força, muito além de um ponto,
mas a certeza da longevidade pra onde vai a luz.

Um corpo sustentando a leveza
do fardo de cada um,
só recebe a beleza de superar respirando
a própria lástima, e entendendo no louvor
de abrir os poros, que são todas as sensações
que do pleno nos faz vivos e então sujeitos a viver nosso máximo,
e saber o que é de fato esse amor.

Muito mais que palavras ou gestos,
é um olhar intransferível - uma sinestesia de dentro
entre a verdade e o sensível que entrega esses pontos
e as pedras de seguir o caminho e distender-se, afinal.

A coragem mora num suspiro profundo;
respira-te.
à Aline Dias