''Todas as horas ferem, até que a última põe um fim...''

domingo, 28 de março de 2010

''...me diz, me diz, pra onde a gente vai fugir?...''

a polpa pra fora com o gomo ressaltante de sua forma
é um crime antigo fazendo falta quando nada está certo, também.
veja-se a essência avolumada e sentir é uma seiva suculenta
assim que se prova o que não se desperdiça -
e só pode virar, sustento.

há tempo eu sou só metade, e o que costumava ser, de vazio é uma deficiência
uma condição de um estado de olhos cansados, sem vista por mudar.

o que inunda os olhos e o mundo
já não se lava mais na tempestade
só eleva os níveis de alto risco
e falta, muita falta de coragem.

sábado, 27 de março de 2010

um hoje, enquanto-você...

Para além do que vivo sem esperar,
como esse agora que transpassa-se por horas sem guardar esperanças,
eu te revelo que eu agradeço o fraco poder de minha memória.

uma ilimitação esquiva de tempo, de possessão,
é uma miragem por entre uma virtude que guarda como uma surpresa
a sua ternura de deixar doce um relance que seja
E me dá um de repente, pra aguentar os ponteiros curvando o abismo,
rachando a terra por amargura...

vai e atinge o peito com o que inflama,
mas não demora não pra me dizer que o silêncio é a minha saudade mais pura.

sexta-feira, 26 de março de 2010

''DIES IRAE'' in apathy

''(...) Quererei fazer alguma coisa definitiva que rebentasse com o tendão tenso que sustenta meu coração. E os que desistem? Conheço uma mulher que desistiu. E vive razoavelmente bem: o sistema que arranjou é ocupar-se. Nenhuma ocupação me agrada. Nada do que eu já fiz me agrada. E o que fiz com amor estraçalhou-me. Nem amar eu sabia, nem amar eu sabia."

(Clarice Lispector)

quinta-feira, 25 de março de 2010

nada vai mudar, nada vai mudar isso!

nos meus dentes famintos são as pérolas de um sorriso
pra abrir a boca o suficiente que possa pra dizer da forma maior
para o mais infinito e invisivelmente a matéria que transcenda,
um sonoro, um vívido, um absurdo:
EU TE AMO!

Ana em ti, minha vida!

E a lavoura, meu amor, vai lavrada de água,
um parto de lágrimas vindo de cima,
muito acima de nós.

"(...) não tenho culpa desta chaga, deste cancro, desta ferida, não tenho culpa deste espinho, não tenho culpa desta intumescência, deste inchaço, desta purulência, não tenho culpa deste osso túrgido, e nem da gosma que vaza pelos meus poros, e nem deste visgo recôndito e maldito, não tenho culpa deste sol florido, desta chama alucinada, não tenho culpa do meu delírio. (...)"

quarta-feira, 24 de março de 2010

Elegia viva

O menino que vinha procurando luz,
agora está engolindo gotas de chuva.

De repente o vejo no céu escuro, brilhando fraco
e numa vertigem depois,
sempre ao tempo, sempre disposto
Em monumentos esculpindo palavras mudas

E então, eu o vejo brilhando ao sol refletindo num frasco pequeno;
ele dentro de um vidro, naufragando uma mensagem
dormida nas gotas como o oceano que ele formou e não desaguou de si.


Assim, pequeno e intacto,
pra sempre.

De nós demais

O dia amanheceu com as rosas orvalhas
de um pûs vindo do antigo do céu da boca
- inchando palavras pra doerem o suficiente a que não sejam úteis
e num rubro profundo, sangra o intenso revertendo tudo

e pra dentro, o úmido lá fora explicando-se, entre mundos,
descobertos de proteção e uma angústia de viver tentando não arrepender-se,
ah deus, mesmo que mude, é tão forte que não há luta, e eu já não entendo meus passos;
sou cega de uma razão alheia tateando meu escuro
um tanto de luz
um tanto de vento
e tudo o que posso, tenho
concentrado numa bolha efêmera, num amanhecer de cristal
por nunca ter dormido, permaneço de olhos abertos, de poros escancarados
e ao frio da chuva, uma desproteção tentando esquecer que existe a palavra abrigo.

''(...) Pudesse eu um dia escrever uma espécie de tratado sobre a culpa. Como descrevê-la, aquela que é irremissível, a que não se pode corrigir? Quando a sinto, ela é até fisicamente constrangedora: um punho fechando o peito, abaixo do pescoço: e aí está ela, a culpa. A culpa? O erro, o pecado. Então o mundo passa a não ter refúgio possível. Aonde se vá e carrega-se a cruz pesada, de que não se pode falar.

Se se falar - ela não será compreendida. Alguns dirão - "mas todo o mundo..." como forma de consolo. Outros negarão simplesmente que houve culpa. E os que entenderem abaixarão a cabeça também culpada. Ah, quisera eu ser dos que entram numa igreja, aceitam a penitência e saem mais livres. Mas não sou dos que se libertam. A culpa em mim é algo tão vasto e enraizado que o melhor ainda é aprender a viver com ela, mesmo que tire o sabor do menor alimento: tudo sabe mesmo de longe a cinzas. (...)"