''Todas as horas ferem, até que a última põe um fim...''

terça-feira, 16 de novembro de 2010

A extremidade dos dias

Os pensamentos que vivificam sombras
personificam as nuvens negras do céu
como se as existências se prestassem
a que todas as quedas respondessem todas as violências...

E logo uma prece me diz:
quem me dera que o salto todo desse céu acabasse com minha sede.

sábado, 13 de novembro de 2010

Mon-Voulez

O cansaço da solidão
sem a misericórdia de
abrir os olhos e n'outro
dia ver um esqueleto passado
- muito mais que a fome de um vão

Um espaço ocorrido entre
a graça de sentir-se em-mundo
e do vazio apossando tudo
à possibilidade de fortificar
a surpresa de estar

Como em vontade de crepúsculo em direção do olhar,
as cores rubras escancarando o peito
sem o medo da pele pálida,
sem o avesso de um dia neutro

Entre a não-tranquilidade que o tempo diz
agonizando os dedos parados
e a espera em desencanto de flores novas
- quase mármores

Petrificando uma presença encrustada em toda parte,
congelando o pulsar alto e vívido
Um grito se volta em sombra no olhar, e se parte o mundo
E ainda o contraste é cheio de amor, veja só,
como em toda parte,
como se fosse tudo.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Aspas por dentro

Sonetos que não são
de Hilda Hilst


''Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha

Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha.)

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.''

( Roteiro do Silêncio(1959) - Sonetos que não são - I)

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Dos pólos ao centro

Gotas que abrasam o dia de seu total,
esvaem o mundo
sem chegar ao seu fim

Nos abrem os olhos e dispersam o mesmo cálido,
quem sabe entornando gotas também,
a fim ...

de mudar
uma palha seca
pra paisagem plena.

Como no dourado do trigo,
lembrar uma trilha só
e com tudo que mancha a saudade,
escrever o sentimento maior,
que é muito melhor dividir esperas,
do que caminhar sozinho.
Um pedaço aqui
e outro acolá...
mas é assim
que o vento e
seus sinais,
fazem meu sentido.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

domingo, 7 de novembro de 2010

A rede

O balanço que me embala
é como um vôo sem transmutar o corpo
o que liberta é um fechar de olhos sublime
de o peso em pluma abaixo do pés - logo terra, sim,
mas vivendo o etéreo das ideias

E assim simples eu quero a fibra dessa matéria
e não o enjoo do ir e vir
como eterno retorno e ânsia do que não se é

E sabe-se de repente, que antes de livrar-se do passado,
a grande coragem é o salto de ir
e saber voltar pra reconhecer o que lapidou esse todo

Abaixo de si, um solo de vermes
e a fertilidade inspirando (enquanto doendo) o coração,
e também pedindo o céu, como num momento desses -
aonde o lúdico e um de repente deixa os dois em mim
como um entremeio

E o meio gosto,
e a vontade do vôo,
na equalização dos meus medos e sonhos.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

pequenas rosas despetaladas

O olhar transforma o que recebe
do cultivo frutificado por dentro;
a terra estremece ao mais delicado sentir
e uma rosa aparece, em certeza apaziguada em si

O bem-querer mora nos cílios de quem percebe o mundo
com os próprios pulsares sonorizando os passos,
sob a terra em que vive o bem-querer dentro de um suspiro
e a realidade a que se inventa o espaço.

Contorna a forma e liberta a fonte
dos dedos enrodilhados na entrega
de receber nas mãos um papel, o mundo
como as últimas e primeiras coisas da aurora e nosso interno submundo.